14.9.06

Ciranda do mundo


"Ciranda por ti, ciranda por mim."

Num mundo em que desponta a individualidade, cidadania é termo pouco praticado. Triste contradição, já que a necessidade de ações cidadãs cresce tanto quanto o desejo individualista de se preocupar apenas com si mesmo e esquecer o restante.

Para remar contra essa maré de egoísmo é preciso equilibrar-se em dualidades que se completam, mas também se opõe: direitos e deveres, ter e ser. É uma associação justa. Tem mais direitos aquele que cumpre com seus deveres e mais realizações – sejam elas de cunho pessoal ou material – quem se doa e desvia o olhar do próprio umbigo.

Entretanto, vestir a capa da insensibilidade é muito mais cômodo. Ela impede os olhos de verem a idosa a pedir esmolas, a criança que troca o banco da escola pelo de engraxate e a mulher que usa o corpo para garantir que os filhos tenham o que comer. Se os olhos não vêem, a consciência não pesa e, portanto, não há ação. E assim tudo continua destinado a se agravar e a completar o ciclo da indiferença que só faz estacionar o mundo.

Fazê-lo girar, desviar o caminho e seguir outro rumo cabe às pessoas. Ser cidadão é muito mais do que possuir uma carteira de identidade que possibilita a abertura de algumas portas individuais, e sim usar da força e da voz para contribuir com o coletivo, afinal, por mais clichê que possa parecer, ninguém consegue mudar o mundo sozinho.


Referência: canção 'Ciranda do Mundo', de Eduardo Krieger, interpretada por Maria Rita.

Ciranda do Mundo

Maria Rita

Composição: Eduardo Krieger

Pela profecia o mundo ia se acabar
Pelo vagabundo deixa o mundo como está
Pelo ser humano pelo cano o mundo vai (ou não)

Pelo cirandeiro o mundo inteiro vai rodar
Ciranda por ti
Ciranda por mim
Roda na ciranda
que é pro não virar pro sim

Ciranda que vai,
ô
Ciranda que vem
Roda na ciranda
que é pro mal virar pro bem

Fonte: Letras Maria Rita



Fotos By EGO Galeria

Fonte: http://www.mariarita.blogger.com.br/


9.8.06

História Viva

Histórias de grandes guerras são vistas em livros e filmes como fatos isolados e distantes. Com isso, cria-se a falsa impressão de que todo o horror possível já foi provocado e de que não haverá conflitos mais sangrentos dos que os já registrados. Entretanto, o cotidiano revela que o ódio entre grupos e nações mantém-se aceso.

Por mais distintos que sejam os motivos dos embates, todos convergem num ponto: as conseqüências são incalculáveis. Sobre elas, é costumeiro atribuir maior importância para as de âmbito econômico e mundial, como o aumento no preço do barril de petróleo ou a influência da situação na cotação do dólar, por exemplo. Porém, ao apontar o foco para a vida dos cidadãos comuns, a percepção dos efeitos torna-se ainda mais gritante. Vários são os que perdem seus lares, familiares, ficam feridos e vêem sua vida ser destruída em nome de ideologias que nem sempre condizem com as suas. Além dessas perdas visíveis, o rastro de destruição carrega consigo o que há de mais primordial: o direito à vida.

Não há como viver naturalmente sabendo que o risco de morte é constante. Vidas são interrompidas, pessoas privadas de sua liberdade, destinos desviados e a dignidade do povo é esvaída. A sensação de insegurança é acentuada pela falta de pulso da ONU, órgão responsável pela promoção da paz, mas que não impõe o respeito esperado, tendo sua voz abafada pelos interesses dos países que detêm o poder.

Com base numa análise da atual situação, as previsões não são nada animadoras. Os conflitos prometem perdurar, garantindo cada vez mais capítulos de guerras para rechear os livros de história.

O apego à religião é causa e refúgio das guerras.

A destruição vai muito além das ruínas.

31.7.06

A vida em essência

Dentre todos os sentimentos o amor é, sem dúvida, o mais homenageado. Tema de músicas, livros, filmes e outras expressões artísticas, inúmeras são aqueles que tentam traduzir em palavras o pulsar da vida.

Se personificado, o amor seria um menino maroto que invade sem pedir licença, expulsa toda e qualquer racionalidade e aquece até os mais frios, derretendo-os com simples gestos, palavras e demonstrações pequenas, mas que valem muito. Menino poderoso esse. É liberto de efemeridades e travas, sendo calcado no puro gostar de algo ou de alguém. Consegue transformar situações e trazer mais cor e sentido para a vida, transcendendo as formalidades e friezas impostas pelo mundo. E é contra elas que o amor se faz mais forte. Rompe com delimitações criadas pela consciência e encharca as mãos de sentimento e emoção, fazendo com que o controle do que se pensa e sente escape por entre os dedos e os impulsione a tentar discorrer a respeito deste movimento de almas.

Apenas tentam. As criações inspiradas no amor são de grande beleza e profundidade, captam e apresentam sua essência, mas jamais conseguirão delimitar em arte aquilo que é extrema e unicamente sensorial e não se pode explicar, nem muito menos compreender, pois nasceu para ser sentido, vivido.


Texto e foto: Mariana Rotili